De mentiras e devaneios

imagem por geronimo89

Desconheço a existência da poeticidade. Desconheço as rimas e a capacidade do lirismo em vidas regadas à métricas versadas e estróficas. Desconheço até mesmo o que é poesia. Mas peço licença aos poetas, porque até mesmo os não versados nessa arte tem o direito de se expressar. Deixe-me prosear um pouco. Não há mal algum, eu acho.

Gosto dos campos vastos e rasteiros de tapetes verdes sob a luz da lua. Dispenso a vivacidade dos dias ensolarados. Gosto mesmo é da luz pálida e fria que traz brisa e aconchego mesmo sob o manto noturno escuro e sombrio. Gosto da infelicidade que gera a solidão. Gosto da companhia da noite e nada além. Sons emudecem e a vida se recolhe, adormece. Somente eu e noite, egoistas. Nos limitamos a conversar com não-palavras, não-rimas e não-sons tempo adentro.
Penso que cenários como praças, estrelas e luz da lua são perfeitos para poetas criarem. Mas não para mim. Não. Sinto a perfeição nas mortes frias em valas sujas. Não, é ser cruel demais pensar assim. Mas uma elegia à morte até que cairia bem. Ela, que é tão fria e sorrateira. Merecia alguma poesia também, não? Mas enfim.
Penso em mentiras que nunca contei. Em estórias que nunca pensei. Em inexistências que fervilham em minha mente durante a noite e me abandonam pela manhã como se nunca estivessem existido. E não existiram.
Penso no quão chato é sentir a sensação de vazio. Sentir-se Deus capaz de criar e, no segundo seguinte, inútil. Forçar-se a ser o que não é, a escrever o que não sente. É o mesmo que mentir olhando nos olhos do seu reflexo no espelho.
Inverdades. Inverdades que pululam frenéticas na alma humana, como pulgas infestantes num colchão de detento. Somos o colchão. As mentiras são as pulgas que, famintas, corroem o colchão, fragilizando-o, fazendo com que se perca o conforto pouco a pouco. As mentiras que contamos. Comem a nossa alma aos poucos, as mentiras. São mordiscadas quase imperceptíveis. E então nos deixamos tomar. Nos tornamos escravos delas.E depois, vítimas.
Penso se não seria a morte também uma mentira. Uma mentira bem contada, mas mentira. Um sumiço temporário, um pique-esconde de corpos em putrefação para que as almas fujam, não seria isso a morte? Desencarnar-se não é morrer. É despir uma casca que obteve por empréstimo. Mas você continua lá, não? Por aí? Se escondendo dos que insistem em te encontrar na forma daquela casca vazia… E você provavelmente já esbarrou neles tantas vezes… Mas ignoram. Ignoram seu verdadeiro eu. Para eles, sua casca gritava mais alto. Materialistas, mentirosos.
Nota como os falsos poetas prezam a beleza da casca? Como fazem elegias à ocorrencias puramente estéticas? Como quase já não glorificam a morte em si?
Elegia perdeu seu real significado. Como muitas outras verdades. Isso se deve a falsidade da existência humana, bandos de colchões de pulgas. Quanto menos esterilizados forem nossos corações e almas, mais propensos seremos às traições e mentiras. Somos crias puras do mundanismo.
Já não se fazem sonhadores como antigamente. Não. Agora todo mentiroso se acredita sonhador. Meus pêsames aos poetas, escritores e criadores de sonhos e fantasias. Já não se fazem pensamentos como antigamente também. Acreditam que os sonhos são frutos de mentira. Acreditam que mentiras nada mais são que sonhos mal contados. Mas a verdade é que os sonhos, há muito tempo atrás, nasciam dos mais puros corações. Eram fecundados em outro plano e colocados, adormecidos, em nós. E então, de acordo com nossos corações, escolhiam quando e como se manifestariam. Porque os sonhos existem para serem realizados, não contados como mentiras que nunca foram.
Percebi que a noite encerra segredos… Mentiras, sonhos, realidades, mortes. A noite encerra de tudo. É dona do manto escuro. A noite é sábia e por isso gosto dela, da sua companhia. As incertezas e as inexistências se tornam palpáveis por meros segundos antes de sumirem na névoa. Gosto de quando acontece.
Só a noite o tempo diminui a velocidade e me permite registrar ocorrências surreais da sua passagem. E eu devaneio, devaneio. Terminando em lugar algum. Lá onde comecei. Nos campos vastos e rasteiros de tapetes verdes sob a luz da lua. Onde a linha tênue entre razão e loucura se rompe e as palavras escapam, incertas, para traçarem um destino matreiro sem finalidade alguma. Ou possuindo algum segredo do universo.
Anúncios

dreams have come true…

foto por mrcool256
Sonhos existem e se tornam reais à medida em que acreditamos neles… Assim como ambições, desejos, vontades… Tudo está ao nosso dispor. Mas nada vem fácil. Pena que, pra ir, vai superfácil, você pisca e já foi… Mas tudo bem, são coisas que enfrentamos a vida toda.
Tudo realmente está ao nosso dispor, mas nada é de graça, sabe? Tudo tem seu valor exato e, ou pagamos por ele, ou não teremos. É como uma vitrine de sonhos, desejos, vontades, idealizações. Na porta da loja, um único aviso: Só deseje aquilo que está disposta a pagar. É… E aí você se arrisca a olhar mais do que pode pagar por ora, mas você reserva:
– Esse aqui eu venho buscar em breve, e esse, embrulhe para presente, que eu buscarei junto. Logo logo.
É… grandes, pequenos, médios… Todos eles lindos, alguns conquistados com pouco, outros com um esforço tremendo. Um diploma, uma casa, uma família… Alguns possuem valor incalculável. Mas eles te escolhem… E você paga por eles o quanto acha que eles valem.
O bom é quando você valoriza de acordo com o que realmente vale. Inestimável, por exemplo, foi e continua sendo o seu amor… Eu pago à prestações o quanto ele vale pra mim, porque, segundo o vendedor, eu pagarei por toda a eternidade. É um valor que estou disposta à desembolsar. Ele falou que não tem reembolso e nem troca se der defeitos como ciúmes, brigas corriqueiras, distrações etc. Ele também não troca se o produto parar de funcionar, mas eu acredito que é algo de extrema qualidade… Ainda que dê defeitos, já que nada é 100% garantido, eu gosto… Na verdade, são os pequenos defeitos que fazem ser tão divertido possuir tal coisa tão valiosa…
As vezes sinto medo. Medo de que pessoas más farejem todo o seu valor e tentem a todo custo roubar a minha, e só minha vida. Que tentem levar de mim esse produto de valor inestimável… As vezes, tipo quase sempre, quem dá defeito é o comprador… Que acaba tendo surtos enormes e malucos, mas ele nunca espatifaria algo tão lindo na parede ou em algum canto… Não, ele só é um comprador doido que fica berrando e gritando, choramingando, histérico e louco, mas passa e ele fica alisando e cuidando do seu bem mais precioso… E o engraçado foi que o produto o escolheu, não ele o contrário… Mas esteve sempre feliz com a sua aquisição… E sempre estará… 

Esse texto eu escrevi na madrugada de hoje, para alguém especial.

this is empty

foto por jochra

Um vazio e frio espaço se forma em mim. Preenchido de absolutamente nada. Sensações, pensamentos, palavras… Fogem todos perante esse vazio imponente e imenso que decidiu me habitar. Ah inquilino maldito, o que pensa estar fazendo? Não te bastou preencher os dias e as horas do meu tempo? Não te contentou o suficiente fazer sumir minhas tantas vontades, meus desejos? Agora só se sente melhor preenchendo-me também? Como se causar o vazio em horas a fio não lhe bastasse…

Procuro algo com que preencher essa falta de não-sei-o-quê que sinto, mas parece-me inútil. Não adiantou saciar minha fome e nem a minha sede. Não bastou-me ocupar meus ouvidos com música. Não foi suficiente abraçar os meus sonhos ou o meu travesseiro salgado e fechar os olhos. Não, nada do que eu tenho feito tem preenchido esse vazio. Conversar, quando me faltam palavras… Pensar, quando tudo o que me vem à mente é algo parecido com Como é escuro e vazio aqui dentro… E como é frio também… Falar para o nada … Ah, palavras mudas… Não sai nada… A minha voz soa vazia, sem timbre, sem sentimento, sem som…Só um abrir e fechar de boca suave…
Ah, é como se o tempo parasse e a respiração do mundo cessasse. Nada gira. Tudo tão palpável… 

Está tudo em slow motion e eu me sinto ir contra essa natureza perfeita. Eu quero correr, mas o tempo me prende pela manga da blusa. Me puxa no sentido contrário de onde quero chegar…

Eu queria fazer tudo voltar a funcionar, mas nada me parece igual… Nem todos são amigos agora… Com tudo parado, vemos quem é quem, milhões de máscaras caindo, o som delas se partindo soam como uma só… E no meio da multidão eu reconheço os que amo. Ainda os amo? Me sinto tão vazia, tão incapaz de responder essa pergunta, tão impotente e com medo de não poder dar a essas pessoas o amor e carinho que elas merecem…
Será que um dia eles vão me perdoar?
Eu me ausentei, é isso…
Esse vazio deve ser invenção da minha mente, ou talvez não. Talvez ele só quisesse que eu tirasse férias de mim mesmo. Mas como dói estar vazia… Uma dor que não sinto do modo que deveria, mas que machuca tantos outros e não só a mim… É tão amargo e gelado o gosto do vazio… 

Parta-me, quebranta-me, mas não me leve de mim.

not only words…

Uma noite como outra qualquer e eu me sinto tocada pelas palavras… Não. Não saídas de um livro de poesias melosas ou de um dicionário de renome qualquer… Palavras simples, palavras atrevidas, que literalmente tocaram meu ombro. Implorativas. Elas queriam um lugar onde ficar. Pode-se dizer que estendi a mão para elas e deixei que caminhassem até a minha palma… E então como quem esmaga um inseto, achatei-as contra o papel, deixando que se deitassem sobre ele e fizessem de lá sua eterna morada… Ou até o tempo levá-las dali, de mim…

Entre o e e o m pingou uma lágrima salgada. Um pedacinho de mar, que acabou afogando meu a. Mas ele continuou intacto, pelo menos não sumiu de onde eu o havia colocado. 

Agora estou com um olhar distante, imaginando como foi que ele sobreviveu a um pedacinho de mar… Mas ele falou que não eu não preciso saber a resposta. Enquanto eu simplesmente acreditar, ele enfrentará quantas lágrimas mais insistirem em borrar a sua forma no papel, ou no meu coração.

Penso que é hora de deixar que as palavras descansem um pouco. Tivemos ambas um dia cheio. Eu, enquanto pensava nelas. Elas, enquanto confiavam em mim para aconchegá-las em frases e orações, períodos e, me arrisco a pensar que, elas se reproduziram o suficiente para formarem um parágrafo. Agora, vendo-as descansadas, me arrisco a dizer que elas compõem um texto agradável em algum lugar, mas, principalmente, no meu coração.