Metáfora e morte, o tudo é uma coisa só?

 

imagem por angelandluci

 

Dizem que morrer é fácil. Deve ser. Você para de respirar, seu coração deixa de bater e você aparentemente não vive mais.
Mas e se isso for superficial demais? E se essa for a morte que a ciência acredita existir? E o que realmente predomina em nós enquanto vivos?
Acho que todos que perdem alguém, perguntam-se: como é morrer. Depende.
Em paz ou em guerra? Com dor ou sem dor? Culpado ou inocente?
Você escolhe. Quase sempre. Uma vez perdi um amigo. Um irmão. E, sobretudo, um grande pai. E eu pensava:
Como deve ser morrer? Não sentir mais dor, não chorar mais, só sorrir…?”
E se não for realmente assim?
Ainda hoje, me pergunto se há um vazio sublime que leva o peso do nosso corpo para longe, e predomina a paz. Ou se é o breu. O breu pesado e frio como um manto de horrores. Ainda não sei… Mas penso a respeito.
Penso que a morte do corpo é só uma metáfora. É como viver dentro de uma máquina. Você recarrega a bateria sempre, mas um dia a carga não vai mais funcionar. Tudo tem um prazo de vida útil. Alguns trocam a bateria, e tudo volta a funcionar normalmente, tudo novo de novo. Mas às vezes, nem mesmo trocando a bateria, você escapa. Às vezes ela simplesmente não é compatível. E daí a sua máquina desliga. Qual é… Nem sempre é tão doloroso, por mais apegado que você seja ao seu recipiente… Alguns se apegam na casa, no carro, num presente antigo de alguém especial… Mas todos, sem exceção, são apegados aos seus corpos. Suas máquinas. Ou como preferirem chamar agora. E o desligamento às vezes ocorre antes do prazo, assim pensam. Alguns acham isso injusto, mas tudo tem explicação. Lógica ou não.
Acredito que o desligamento da máquina seja benéfico. Você está se desprendendo de um peso que te segura em um lugar onde você não funciona mais.
Se você não se encaixa mais, pra que querer voltar para sua máquina depois de desligada?
Não faz sentido. Ainda me pergunto se meu pai abandonou a máquina dele de boa vontade. Não me perguntei se ele sentiu paz. A máquina dele denunciava isso. Os que ficaram, aqueles que ainda ocupam suas máquinas sofrem por ele.
Mas e se tudo for verdade?
Então pode-se acreditar que ele está melhor que nós… Ele não me parecia ter assuntos inacabados, embora sua máquina tenha sido desligada, para nós, muito antes do prazo. Mas cada máquina tem seu próprio prazo. E ninguém, nem mesmo a ciência, pode dizer qual é.
Elevar-se da máquina é uma metáfora bonita. Eu espero estar bem consciente quando acontecer comigo. Não que eu tenha pressa. Mas quando chegar a hora, será fácil saber. Ainda que todos duvidem. Acredito que, até os que tentam desligar as próprias máquinas na verdade não o fazem. Eles apenas mexem no lugar certo na hora certa. Acabam sincronizados com o relógio temporal da máquina deles. Sim, talvez eu esteja admitindo que o suicídio seja uma fraude. Uma máscara. Talvez não, estou.
Às vezes até um amendoim pode dar defeito e desligar a máquina. Nunca se sabe, até realmente saber.
Eu gosto de metáforas. E acho que a morte é uma delas. Eu desconheço o significado em latim para a palavra morte. Sei que grafa-se mortis. O termo ainda é muito utilizado por legistas em autópsias: causa mortis. Em outras palavras, o que contribuiu para o desligamento de determinada máquina. É isso aí. Morte é só uma alegoria. Tal como essa que uso da máquina. É só uma desculpa para você desvestir a pele que habita e ser realmente livre.
Aliás, falando em pele, seres humanos se acham o máximo por tantos séculos que já duvidam que sejam animais. Alguns, ainda, acreditam que ser comparado a animal está relacionado a ter uma natureza brutal, de comportamento hediondo. Até selvagem e animais virou sinônimo de monstro, de assassino, de pessoas ruins, de má índole e mau coração. Alguns levam a comparação a sério e dizem estar “abraçando” seu lado animal quando fazem algo errado: agi por impulso. A polícia ainda cai e manda o fulano para o hospital psiquiátrico.
Sabe, abracei sim, meu eu animal. Meu eu puro de coração, inocente, não feroz. Meu eu livre, não cruel. Meu eu feliz, não um monstro. Abracei a denominação que a ciência nos deu: reino > animal. É a esse reino que pertencemos e animais é o que somos. Embora me envergonhe comparar os humanos a animais. Somos uma vergonha para os nossos iguais, embora diferentes, irmãos.
Seres humanos são afetadinhos, se acham donos do mundo. Eles não veem que essa máquina é só uma roupa para cobrir a nossa nudez?
Alguns fecham os olhos para isso. Outros, de se acharem superiores, tentam fazer da religião um deus.
Mas e o Criador? E o mundo e tudo o que nele há?
Não somos nós somente que desvestimos nossas peles. Os outros animais também o fazem. E talvez permaneça em segredo, deles pra nós e de nós para eles para sempre a respeito dos nossos espíritos.
Ainda acredito que a morte é uma metáfora. Uma deliciosa alegoria. Uma viagem.
E a vida?
Depende. Para alguns, um aprendizado. Para outros, uma breve visita, saber se aqui ainda merece espíritos bons.
Para a maioria?
Danação na certa. É… Nascer é uma ironia e tanto. Alguns nasceram para se tornarem melhores. Outros, estavam extraviados, então mandaram pra reciclagem. Vai entender…
No fim das contas, eu não acredito no fim do mundo. Acredito que, quando a máquina de alguém desliga, então é aquele o dia do juízo para ele. Eu não acredito no inferno e no céu como um coletivo. Ninguém te escolhe em meio a tantos como num jogo de queimada:
Você queima no inferno; você ganha asinhas pro céu; você… tô indeciso quanto a você, volte para a Terra
Não. Acredito no inferno particular.
Por que todo mundo acha que o inferno é quente e o diabo é vermelho? Ou que ele existe tal como pintamos? Chifrudo, com rabo e tridente?
Acredito também no paraíso, céu, heaven, cielo, sky, como preferir chamar. Mas acredito que, para cada um, ele seja único. Isso não significa que você passará a eternidade condenado à solidão. Muitas pessoas sonham com um lugar como o seu. E então todas provavelmente irão pra ele, se merecerem. O inferno, eu acredito que seja uma repetição de tudo o que nos feriu e nos fez mal aqui. Um eterno repeat dos piores momentos de nossas vidas. Ou um replay da hora da morte. Morra quantas vezes quiser, que vai ser eterno.
Por que Jesus barbudo parecido com Jim Caviezel e diabo vermelho e com tridente? Maçã fruto do pecado e mulher amante da serpente?
Eu acreditava na versão da bíblia para o sofrimento da mulher. Mas, somos animais. Por causa da mulher retirada das costelas de um homem os outros animais também tiveram que pagar?
Parece loucura alguém como eu questionar isso. Talvez seja. Mas eu já vi cadelas dando à luz. É oito vezes mais doloroso. E que pecado a fêmea do cachorro cometeu para sofrer de dor no parto e menstruar de seis em seis meses?
Ah, desculpe, menstruar é para as humanas, animais ficam no cio. Tudo a mesma coisa.
E a égua? A vaca? Que não vê a galinha chorar quando bota um ovo?
Ou talvez ela só goste de exibir para as amigas que botou um ovo quando cacareja de modo diferente. São tantas perguntas que os humanos tentaram e nunca souberam responder…
O que dizer de algumas mulheres que não sentem dores ou enjoo durante a gravidez, ou cólicas mensais?
Nada. Elas se cuidam melhor, só isso. Assim como os outros animais. Perceba, quanto menos sedentário é o animal, menos sofre no parto. Sem exceção. Ou então toda fêmea comeu da maçã. Aliás…
Por que maçã mesmo?